Genética é apontada como estratégia duradoura para reduzir prejuízos com carrapato


A resistência genética dos bovinos ao carrapato pode se tornar uma das principais ferramentas para reduzir perdas econômicas e a dependência de tratamentos químicos na pecuária. A avaliação foi apresentada nesta terça-feira (13) pelo médico veterinário e pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, Fernando Cardoso, durante a 93ª Farm Show de Dom Pedrito, no Parque de Exposições Juventino Corrêa de Moura.
Na palestra “Genética, a solução duradoura contra o carrapato – gado resistente, menos custo e mais resultado”, Cardoso destacou os impactos sanitários e produtivos provocados pelo parasita e apresentou resultados de pesquisas que demonstram a existência de diferenças significativas de resistência entre animais. “O carrapato causa anemia, transmite os agentes da tristeza parasitária e ainda favorece infecções secundárias. Com isso, temos redução de ganho de peso, queda na produção de leite, estresse, baixa imunidade, problemas no couro e até mortes”, explicou.
Segundo o pesquisador, o problema se agrava com a resistência dos carrapatos aos produtos utilizados no controle químico. Um levantamento realizado no Rio Grande do Sul em 2024 identificou resistência a quatro ou mais princípios ativos em 98% das populações avaliadas, enquanto 6% das propriedades pesquisadas já não apresentavam resposta aos produtos químicos disponíveis na época.
Para Cardoso, a genética oferece uma alternativa de longo prazo. Experimentos conduzidos pela Embrapa demonstraram que animais zebuínos apresentam resistência muito superior à dos taurinos, mas também foi identificada uma importante variabilidade genética dentro das próprias raças, permitindo selecionar indivíduos mais resistentes sem abrir mão de características produtivas. “A boa notícia é que existe variabilidade genética dentro das raças quanto à resistência ao carrapato. Isso nos permite fazer a seleção de animais mais resistentes”, afirmou.
O avanço da seleção genômica ampliou essa possibilidade. A partir da combinação de informações sobre a contagem de carrapatos e o perfil genético dos animais, pesquisadores conseguem estimar a capacidade de um reprodutor transmitir maior resistência à sua progênie, sem a necessidade de submeter todos os animais ao desafio do parasita.
Um dos trabalhos apresentados mostrou que filhos de touros geneticamente classificados como mais resistentes apresentaram redução de cerca de um terço na carga parasitária em comparação com animais descendentes de reprodutores menos resistentes. Para o pesquisador, a estratégia deve ser integrada às demais características de interesse econômico. “Não é uma ferramenta única, mas é uma ferramenta duradoura, efetiva e que realmente pode trazer maior lucratividade”, ressaltou.
Cardoso também mostrou ferramentas disponíveis para produtores e criadores identificarem reprodutores com maior resistência ao carrapato nos sumários genéticos de diferentes raças. A recomendação é associar essa característica a atributos como ganho de peso, qualidade de carcaça, fertilidade e precocidade. “O desafio é produzir o taurino que tenha precocidade, fertilidade e carne de excelente qualidade, mas também maior adaptação ao ambiente tropical”, destacou.
A palestra foi seguida de perguntas da plateia, com a participação do coordenador da Comissão de Pecuária de Corte da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), José Fernando Piva Lobato. A palestra de Cardoso integrou a programação de abertura da 93ª Farm Show de Dom Pedrito. Na cerimônia, o presidente do Sindicato Rural de Dom Pedrito, Rodrigo Zamberlan Coradini, destacou a capacidade de recuperação do setor agropecuário e defendeu investimentos em tecnologia, inovação e qualificação. “Tradição, por si só, não garante futuro. Precisamos continuar investindo em tecnologia, inovação, qualificação e sustentabilidade”, afirmou.
Também durante a abertura, o gerente executivo de Desenvolvimento de Negócios da Casa dos Ventos, Vicente Ferrer, apresentou o projeto eólico Torquato Severo, previsto para avançar para a fase de obras a partir da metade de 2027. Segundo ele, a geração eólica pode agregar renda às propriedades por meio de arrendamentos, mantendo a convivência com a produção rural. "Hoje temos projetos no Mato Grosso do Sul e em São Paulo. Entendemos que o agronegócio cada vez mais se moderniza, cada vez mais precisa de energia elétrica. Então a Casa dos Ventos está aqui e é conhecida por trabalhar nesse processo de conhecimento de energia, uma energia limpa e barata para grandes consumidores", destacou.
A cerimônia também marcou a abertura da 1ª Semana Acadêmica da Agronomia da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Campus Dom Pedrito. A 93ª Farm Show prossegue até domingo (18), no Parque de Exposições Juventino Corrêa de Moura.





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