Pressão econômica e terror psicológico predominam em estudo sobre assédio eleitoral


O assédio eleitoral no ambiente de trabalho tem assumido formas mais sutis do que ameaças diretas de demissão ou pedidos explícitos de voto. Estudo desenvolvido pelo Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT) identificou pressões econômicas, narrativas de terror psicológico e uso de redes sociais, grupos corporativos de mensagens e estruturas das próprias empresas para tentar influenciar escolhas políticas dos trabalhadores.
Os dados foram apresentados nesta quarta-feira (21) pelo juiz auxiliar da Presidência do CSJT, Rodrigo Trindade, durante live promovida pela Escola Judicial do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (Emargs). A conversa, conduzida pela presidente da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 4ª Região (Amatra IV), Eliane Covolo Melgarejo, tratou das características atuais do assédio eleitoral e das formas de prevenção.
A pesquisa analisou processos registrados entre 2023 e 2026 por meio de avaliações quantitativa e qualitativa. A intimidação econômica, como ameaça de demissão, retirada de vantagens ou outras consequências financeiras, aparece em 61,7% das ações, enquanto o chamado terror psicológico, baseado em narrativas sobre consequências econômicas de determinada escolha política, está presente em 81,9% dos casos. Segundo Trindade, a mudança está principalmente na forma como a pressão é exercida. “Hoje em dia, o nosso assédio eleitoral é muito mais sutil. A pressão continua, mas ela atua de forma muito mais escondida”, afirmou.
Entre as situações identificadas estão reuniões em que resultados eleitorais são associados à possibilidade de demissões, monitoramento das manifestações políticas dos empregados nas redes sociais e exigência do uso de cores, símbolos ou fotos de perfil ligados a candidatos ou partidos. Grupos corporativos de WhatsApp e outros canais digitais também aparecem como instrumentos de pressão, constrangimento e monitoramento. O levantamento identificou ainda o assédio eleitoral institucional ou organizacional, quando a prática não parte apenas de um gestor, mas utiliza a estrutura da empresa. Nesses casos, áreas como comunicação, marketing ou tecnologia da informação podem ser mobilizadas para produzir materiais ou distribuir conteúdos de caráter político entre os trabalhadores.
A prática também pode ocorrer de forma horizontal, com trabalhadores pressionando, isolando ou constrangendo colegas por suas posições políticas. Além dos empregados com vínculo formal, terceirizados, estagiários, autônomos e outros profissionais inseridos no ambiente de trabalho também podem ser atingidos. Outro ponto abordado foi o uso do poder econômico por meio da promessa ou retirada de benefícios relacionados ao resultado das eleições. “Bônus ou qualquer outro tipo de parcela econômica alcançada na relação de emprego tem que ser relacionada à relação de emprego. Quando ela sai da relação de emprego, você utiliza o poder econômico de uma forma subvertida”, explicou Trindade.
Durante a discussão, Eliane destacou que muitas ações chegam à Justiça depois das eleições, quando eventual interferência sobre a liberdade de escolha já ocorreu. Trindade defendeu maior atuação preventiva e integração entre Justiça do Trabalho, Justiça Eleitoral, Ministério Público do Trabalho e Ministério Público Eleitoral para interromper práticas antes da votação. “Nós não temos ainda consolidada uma cultura de inibição. O que nós precisamos é de uma atuação mais positiva e preventiva, de visualizar aquela situação que não está correta e resolvê-la antes de ser produzido o dano”, afirmou o magistrado. Segundo ele, uma mesma conduta pode configurar ilícito trabalhista e também resultar em consequências nas áreas eleitoral ou criminal.
Ao comparar o cenário atual com práticas históricas de controle político, Trindade afirmou que o assédio eleitoral é “um novo problema antigo”. Segundo ele, a utilização do poder econômico para influenciar escolhas políticas existe há décadas no Brasil, mas ganhou novas formas com a transformação das relações de trabalho e dos meios de comunicação “A vontade de impor uma definição política a partir do poder das pessoas sobrevive no Brasil, mas também se modificou. Hoje, o nosso assédio eleitoral é muito mais sutil”, salientou.
Na avaliação de Eliane, a discussão é fundamental para fortalecer a democracia e a liberdade de escolha dos trabalhadores. Ao encerrar a live, a presidente da Amatra IV ressaltou a importância de iniciativas de conscientização sobre o tema. “É preciso sempre lutar e mudar a cultura para melhorar a expressão da nossa democracia através do nosso voto”, concluiu.




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